quarta-feira, 28 de março de 2007

O Filtro do Eu - Artur da Távola


O ser humano não consegue ver o real sem fazê-lo passar pelo filtro interno do seu eu. Cada pessoa só tem um referencial fundamental para analisar e julgar as coisas: ela mesma. O mundo é julgado e os fatos analisados, não em sua relação mas em função da visão pessoal de quem julga. O mundo passa de “eu” em “eu” para chegar aos demais. Assim, cada consideração, idéia, opinião ou julgamento raramente será uma observação imparcial da realidade e, quase sempre, um julgamento impregnado do referencial pessoal. O julgamento será resultante do choque entre o fato e os valores internos de quem o avalia e não uma relação ocorrida fora, sem a interferência dos critérios e valores do julgador.
O esforço de julgar ou considerar o que está fora, como de fora, é dos mais difíceis: significa um profundo respeito por esse mistério que é o outro. Qualquer interferência da instância pessoal é uma violentação da liberdade profunda do outro.
Mergulhar no outro com o máximo de abertura para o que ele “é”, sente, sofre, vive ou interpreta é o máximo possível de respeito à individualidade alheia e o caminho certo para compreender a vida, as pessoas e a complexidade de suas inter-relações. Mas é muito difícil! Impossível, talvez.
Há algo de instintivo, de “sempre em guarda” no ser humano que faz passar por dentro de sua fiação psicomental tudo o que lhe entra pelos olhos, ouvidos, pele e narinas. Só depois desse trânsito pela verdade interna (ou pelas ilusões internas), o ser humano considera a “verdade” do outro. Num certo sentido, o “outro” não existe senão como projeção dos vários “eus”.
Essa dificuldade de abstrair-se do eu para considerar o outro parece ser um instinto natural de defesa contra a despersonalização ou a perda de identidade, já que o máximo de capacidade de abstrair-se do próprio eu levaria ao risco da perda da dimensão da individualidade, indispensável à manutenção de um grau mínimo de equilíbrio mental e psicológico.
Em outras palavras: é impossível ao ser humano desindividualizar-se completamente. Mas será, efetivamente, impossível, ou um hábito tenaz o impede de abstrair o eu na consideração dos fatos e das relações entre outros?
Creio ser possível, senão a abstração pessoal total, pelo menos um esforço de vigilância no sentido de não crivar tudo o que acontece com as determinações do próprio eu. Exercitando a abstração do eu e o máximo de percepção do outro, ampliaremos nossos canais sensíveis, cresceremos como pessoas, (re) aprendendo a “ver” e a “ouvir” repertórios novos. O amor e a santidade, esta raríssima, são os únicos estados no qual o ser humano impregna-se profundamente do outro sem o risco de perda da identidade, antes conseguindo-a ainda mais.
Palavra Viva de MMM...

Um comentário:

silvia disse...

No Amor e "em Cristo descobrimos quem somos e o propósito das nossas vidas"
bjss